O ACOMPANHANTE DOENTE

29/06/2017 às 06h06
fonte e imagem internet

Hoje, meus amigos, o texto é de autoria do renomado médico Dr. Gilson José Correa, médico ginecologista, formado há 32 anos e professor universitário, Presidente da Associação Amazonense de Ginecologia e Obtetrícia - ASSAGO, que aborda assunto importante do cotidiano médico-hospitalar.

O ACOMPANHANTE DOENTE

 

O direito ao atendimento médico humanizado, como princípio de cidadania, assegura ao doente a presença de acompanhante, em ambiente hospitalar ou ambulatorial. 

No Brasil, a lei contemplou as crianças e adolescentes, os idosos, as mulheres grávidas e puérperas e pessoas com deficiência. Um projeto de lei em tramitação no Congresso deve ampliar o mesmo direito a todos os pacientes, seja no Sistema Único de Saúde como na rede privada. 

O paciente tem o direito da livre escolha do acompanhante, não devendo haver qualquer discriminação, restrição ou negação em virtude de raça, cor, etnia, orientação sexual, identidade de gênero, religião e condições econômicas ou sociais. 

A escolha do acompanhante... Eis o grande problema! 

A urgência e emergência criam desafios. O trauma, a fragilidade física ou o impacto psicológico pode apagar ou reduzir o poder de escolha. Muitas vezes, o paciente pode se encontrar em situação de total dependência de terceiros. Como exemplo, podemos citar o caso da vítima lesionada no trânsito que perde a consciência. 

Um familiar, pessoa amiga ou conhecida as-sume o papel de acompanhante. Aqui, resumidamente, duas categorias de comportamento se destacam: a primeira, o cuidador-participativo e colaborador; a segunda, o acompanhante doente-antagônico e hostil. Ambas, vão interferir na evolução do atendimento ao paciente. Para melhorar ou piorar! 

O cuidador é uma pessoa altruísta, solidária e participativa. Informa, orienta, ajuda e conforta o paciente com zelo e carinho. Intensifica os laços de afetividade e constrói com a equipe de saúde uma relação de confiança e cooperação. 

O acompanhante doente se caracteriza pelos sinais de hostilidade. Desinformado, desre-speitoso, é um exigente fiscalizador, mas não aten-ta para os princípios da boa convivência. Agregando ignorância e falta de educação é capaz de criar conflitos, tumultos e atos de violência. 

Anos atrás em Manaus, um competente médico foi alvejado com quatro tiros de arma de fogo, na sala de emergência. Escapou da morte pelo erro de pontaria e a pronta intervenção dos outros colegas que o socorreram, mas ficou com sequela anatômica e funcional, traumatizado pelo resto da vida. 

Ultimamente, alguns acompanhantes doentes vêm utilizando as redes sociais para divulgar, propalar e "compartilhar" vídeos e histórias recheadas de mentiras e ofensas contra os médicos. São alarmantes os índices de registros policiais contra os profissionais da área de saúde. 

Na maioria dos hospitais são contratados agentes de segurança para proteger o patrimônio, porém a equipe médica não tem cobertura para esta proteção. Ligar para o Disk 190 e aguardar a chegada de policiais para conter ânimos podem ser processos demorados e sem garantias de proteção contra agressões mais violentas. 

Situações estressantes desencadeiam reações imprevisíveis em pessoas aparentemente sãs. O acompanhante doente é um mal cuidador que precisa ser cuidado, porque representa um perigo para o paciente e a sociedade. 

Os gestores devem quebrar paradigmas, promovendo ações e programas político-sociais voltadas para a população, visando um relacionamento mais humanizado entre pacientes, familiares, acompanhantes cuidadores e a equipe multiprofis-sional de saúde. 

A missão de atingir graus de excelência no atendimento passa pela melhoria nas condições de trabalho, valorização da equipe de saúde, respeito ao profissional médico e a responsabilidade de quem se propõe cuidar dos enfermos, mantendo vínculos de afetividade, cooperação e ética. 

*Texto publicado no Informativo do CRE-MAM - Conselho Regional de Medicina do Estado do Amazonas (Ano XVI, nº 42 - Janeiro/Fevereiro de 2017, pag.6)"