Que tal pegar o sol com as mãos??

14/02/2017 às 11h02
fonte e imagem internet

Hoje meus amigos, o texto é do escritor e poeta Lúcio Bezerra de Menezes, e claro, meu colega blogueiro (Blog luciobezerra.com, é só acessar). É um texto gostoso que tenho certeza que vocês irão se deliciar em ler!

 

FILOSOFIA DAS FOLHAS VELHAS

Por: Lucio MSB Menezes

Um dos grandes baratos da vida é a gente se reinventar, não capitular diante do implacável tempo, das dores lombares, da falta de disposição para caminhar, da vista cansada, do sono que cada vez chega mais cedo, da hipocondria; tampouco do espelho que teimosamente revela novos fulcros faciais, bochecha mais rechonchuda, cabelos escassos mesclado com uma cor parecida com prata - matiz que se estabelece sem pedir licença. 

É imprescindível, ainda que com assiduidade bissexta – aqui empresto um adjetivo usado com alguma frequência pelo meu cunhado Jeferson Brasil -, “pegar o sol com a mão”. Assistir esse processo burocrático que diariamente o astro rei nos brinda é de um encantamento singular. 

A julgar por esse cristal eu não tenho me reinventado como deveria, luto contra isso, mas, insisto, não tenho. Vejamos: não corro e caminho com a frequência de dantes, pior, parei de jogar futebol há vinte e cinco anos; durmo tarde, mas às vezes, às seis da tarde, sou traído por um sono despropositado; sequer vi o sol nascer nesses últimos vinte anos. Do espelho que me revela fulcros, bochechas e escassez capilar igual, eu aprendi a não me debater, como aquele paciente de UTI quase resignado que, diante da sua impotência, espera que a providência Divina aja a seu favor dando-lhe nova oportunidade de vida e a hipótese da reinvenção. 

Por certo me perguntarão, com previsível surpresa: Ué! Por que pregas no primeiro parágrafo uma coisa e no segundo praticas outra? Também exclamativo responderei: Ué! Escolhi o terceiro para fazer o mea culpa, e daí? Se for uma questão de por que, vamos aos talvez: Talvez porque eu precise acordar; talvez porque queira chamar atenção; talvez porque queira confessar; talvez porque queira que me digam algo; talvez porque tenha cansado desse estado letárgico; talvez por que seja eu esse paciente da UTI; talvez porque esteja a mentir... Ah, sei lá! 

O que eu sei é que o velho Machado me incomodou, muito. Quer saber? Tirou o meu sono, mandou o recado que bem poderia ser assim: Cuido que a reinvenção de si é imprescindível, muita vez é vital, meu caro Lúcio. 

Foi no Capitulo CXVI (cento e dezesseis), intitulado Filosofia das Folhas Velhas, da magnífica obra Memórias Póstumas de Brás Cubas. Transcrevo os trechos que me tiraram do sério: “... se não guardas as cartas da juventude, não conhecerás um dia a filosofia das folhas velhas...”; “Guarda as tuas cartas da juventude!”; e, finalmente, “... se guardares as cartas da juventude, acharás a ocasião de “cantar uma saudade”.” Droga! Eu não fiz nada disso! Eu não guardei uma foto, uma carta, um bilhete, uma linha sequer. Nem bilhete aéreo, nada! Logo eu que mesmo não sendo marujo e nem português amo incondicionalmente o fado, esse canto dolente e melancólico que, dentre outros, canta saudades da terra entoadas na proa do navio no alto mar; logo eu que estou a aprender a amar a poesia e suas licenciosidades. 

Agora estou aqui, a fingir que não sinto a velhice sorrateiramente chegar - felizmente solteira já que não adivinho a companhia do noivo alemão a fungar no meu cangote - e eu, sem me reinventar, a precisar desesperadamente “cantar uma saudade”. Ah, e como eu quero cantar umas saudades! Cantar reinventar-me-á. 

Guardar e desembrulhar sempre que me apetece o que vi e ouvi nesses longos anos é claro que o faço, mas olhar para fotos antigas ou ler os sentimentos confessos eternizados numa folha velha, isso eu perdi. Estou velho em folha. 

Acode-me ir ao Chile escrever em folhas novas, quiçá ainda me seja oportunizado vê-las folhas velhas, talvez Neruda me estimule a um “confesso que vivi”, quem sabe? Se ninguém deve se fiar - e eu não me fio - da felicidade presente, posto que ”... há nela uma gota da baba de Caim” então urge que eu o faça já. 

Acode-me ainda que as folhas velhas guardem similaridade com os vinhos velhos, ambos carregam ricas composições nas suas essências; ambos, se respeitada a dosagem, fazem bem à saúde; ambos, com o passar dos anos, alteram o sabor para melhor; ambos brindam a felicidade; ambos ajudam a nos reinventar. 

Decidido: Chile, aqui vou eu! Vida, aqui me tens novamente! 

Embriagado de tintos chilenos e das lembranças das folhas velhas que não guardei, hei de me reinventar em folhas novas e volver-me novo em folha. 

É o Machado, desde a sua tumba, a dar sobrevida aos moribundos. 

Obrigado, Machado!